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Plágio pela Ésquilo
 
Plágio pela Ésquilo

Um Protesto Público de Plágio da Editora Ésquilo

 

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Gilberto de Lascariz

 

Talvez não haja nada de mais infame e repreensível que o furto. Entre os vários tipos de furto definidos pelas tipologias legais o furto intelectual é o mais indigno de todos. Primeiro, porque o conhecimento e a descoberta intelectual são, de certa maneira, a expressão e o prolongamento mais íntimo do Ser, uma dádiva interior do Espírito e depois, porque todo o saber intuído e inédito traz parte do sangue e da carnalidade de quem o fez nascer. Desta maneira, o furto da propriedade intelectual pertence, também, ao domínio semântico do estupro e da violação. Parece, contudo, que aquilo que desde há anos era intolerável na consciência literária do escritor em Portugal, como a honra de ser imune ao encanto clandestino de fazer qualquer tipo de plágio intelectual, se tornou, desde o caso da nossa conhecida lisboeta, divulgadora de temas científicos, uma forma de escrever sem necessidade de correr o risco de ter dores de cabeça.

 

Isto só é possível, porque vivemos num mundo que espiritualmente poderíamos definir como o do fim da Idade do Ferro. Neste mundo a honra desaparece sob a forma ostensiva da moral hipócrita e da contrafacção iniciática, que se apresenta como fria espiritualidade racional, vestida de honra e vivendo na infâmia. Tornou-se, por isso, habitual entre algumas das nossas editoras dedicadas ao esoterismo, ao fim e ao cabo muito poucas, a publicação de livros cujo conteúdo é uma cacofonia de conteúdos e temas perpetuamente escritos e rescritos, publicados e republicados, até ao limite da insanidade, porém sempre com um título diferente. Foi o que me aconteceu o ano passado ao ler “Os Lugares Mágicos de Portugal” da editora Ésquilo. Sob o encanto de um livro bem embrulhado, que nada traz de novo a não ser o estilo da prosa, com temas e abordagens repetidas ad infinitum, ecos de uma falência de alma e criadas apenas para satisfação dos desideratos do negócio editorial e do exibicionismo personalista. Assim, temos escritores que escrevem sempre o mesmo e da mesma maneira, mudando apenas o título do livro. Estes escritores podem escrever três títulos diferentes em três anos dizendo sempre o mesmo. Outros escrevem, mas não são escritores, auto-publicando-se em bíblicas sebentas e escrevendo mosaicos de enfadonhas citações sobre citações, admirável mestria da imbecilidade livresca, que Kafka ironizara sob a metáfora de Gregor Samsa.

 

Tudo isto seria apenas uma ilustração infeliz do mundo quantitativo e unidimensional em que vivemos, para usar as expressões de R. Guénon e H. Marcuse, se não coabitássemos também com um meio civilizacional cujas alternativas de espiritualidade iniciática confundem, por conveniência do negócio editorial, exoterismo com esoterismo. São cada vez mais os autores, sobretudo de estrato maçónico, o que não deixa de ser sintomático sob o ponto de vista do decadentismo iniciático, que através de exercícios de retórica intelectual e cogitações literárias baseadas em leituras e pesquisas bibliotecárias se apresentam como a epifania do esoterismo. Como se o Esoterismo fosse um trabalho de retórica literária e a expressão do pensamento dedutivo e binário, ou mesmo um exercício de hermenêutica histórica e linguística! O Esoterismo pertence ao domínio da Poesia e da Gnose e não do retórico e do unidimensional. Pertence ao mundo do ambivalente e do inominável, do extático e do polissémico, do límbico e do gestual. É uma arte e não um exercício especulativo de oratória teosófica e cultura mnemónica. O esoterismo não se revela no conforto da cadeira da biblioteca ou no calor do sofá do escritório. Não é obra da Razão, mas da Paixão! Ele revela-se nesse grande mistério intersticial do viver e morrer. Por isso ele se parece tantas vezes com o funeral e a quermesse. É nos extremos que Ele se mostra com o seu rosto ambivalente de Deus e de Fera. Ele é a expressão directa de uma vivência radical, profunda e transformativa do Sagrado.

 

Neste campo, a maior parte do mundo editorial de referência esotérica tornou-se um aterro sanitário de senis, publicando enfadonhas verborreias sobre o Culto do Espírito Santo sem nunca ter recebido a mínima chispa do Paracleto, ou então de compiladores de enigmas históricos sem a inteligência anagógica para rasgar os véus dos seus signos numinosos e dos seus secretos arcanos! O Espírito, como cada um pode constatar pelo verbo de seus epígonos, está ausente de todo este febril mundo de formigas humanas. Mais vale, então, viver solitário ou na companhia de poucos e dilectos companheiros, como um dia fazia Gabriele D’Annunzio (1863/1938), em Fiume, esperando que um dia as cinzas do meu corpo possam ser sepultadas bem longe desta pequena e repelente plebe, como um dia desejou Julius Evola, ao pedir para ser depositado bem alto e bem longe, nos glaciares gelados do Monte Rosa.

 

Vem toda esta minha triste, longa e desencantada meditação, com sabor a Arnould de Liedekerke e Georges Bataille, a propósito do plágio ostensivo recentemente autorizado pela Editora Ésquilo, no seu livro “Grandes Enigmas da História de Portugal”, de um ensaio meu aqui colocado na Web sobre a temática de Endovélico. Contactada por mim, manifestando a minha justificável preocupação ao seu empresário, que pelos secretos dédalos de Lisboa se conta com ironia ter aprendido a ser editor como moço de pizzaria nos tempos em que se nutria dos devaneios da teosofia caseira de Jorge Angel Livraga, nem se dignou responder ao meu sincero e honesto apelo. Na realidade, apenas desejava um simples pedido de desculpa e nada mais! Mas os homens quando vivem demasiado tempo entre os fritos e a gordura das pizzas e das lasanhas, mesmo que no futuro se dissimulem de doutos escriturários, perdem a noção do horizonte moral. Resta-me, assim, deixar público o meu protesto e deixar à consideração do leitor o conjunto de plágios fabricados pelo seu consentido e ardiloso plagiador.

 

O plagiador, António Balcão Vicente, começa logo no início do seu texto por avisar que ia roubar umas frases a Dalila Pereira da Costa e Fernando Pessoa. Não deixa de ser sintomático o espírito presente neste redactor, esta disposição para o “furto”, na sua opinião implicitamente consentido, dando o mote para extorquir silenciosamente, depois, grande parte do meu ensaio existente na internet desde há 6 anos. Deslocando conteúdos e pedaços de texto de um lado para o outro, qual puzzle labiríntico, simplificando parágrafos a uma abreviada sentença, usando ideias de um lado e ideias de outro e colando pedaço a pedaço num novo parágrafo, por vezes seguindo mediocremente até o estilo da minha composição. É o que se chama escrever por copy and paste, usando a técnica de collage. A técnica de plágio tipo collage é conhecida de qualquer professor ao ler as redacções dos mais indigentes alunos: a simplificação e redução do texto original; mudando de lugar as palavras e as ideias dentro do mesmo parágrafo; deslocando uma afirmação do início do texto para o fim do seu texto e vice-versa; usos de vocábulos típicos do plagiado, neste caso, exemplo como ctónico, gnóstico, submundo, etc; seria facilmente apelidado de uma ‘sopa Knorr’ – ferver água e mexer (perdoe-me a marca pelo termo aqui tão pejorativo!). Além do plágio sob o ponto de vista da morfologia do texto, ele apossa-se da ideia, apresentada por mim pela primeira vez há seis anos, sobre a dualidade/duplicidade de Endovélico-Enobolico, afirmando-se como sendo da sua criação sua.

 

Passemos, então, aos plágios:

 

 

1

 

Plágio (P30):

 

«De facto os santuários celtas....tal como os que os precederam...confundem-se por vezes na paisagem»

 

Fonte plagiada:

 

«O que caracterizam os santuários celtas é eles serem a própria paisagem, onde as forças da natureza se manifestam sem qualquer elemento de humanização.»

 

2

 

Texto literariamente mau, sintético e por si não-explicativo (P30):

 

«É ela que define o santuário, tornando-o na aglutinação dos quatro elementos, o ar, a terra, a água e o fogo, ... »

 

Fonte plagiada:

 

«Essa duplicidade está não só na dualidade natural do confinamento cultual de Rocha da Mina (terra-água da envolvência do rio e do penhasco e ar-fogo nas alturas do altar dos sacrifícios) mas, também...»

 

3

 

Solução sintética e simplista de plágio (P30):

 

«È necessário atravessar o Lucefecit como quem atravessa o Lethes numa peregrinação....»

 

Fonte plagiada:

 

«Para entrar dentro do santuário de Rocha da Mina tem-se de atravessar o ribeiro Lucefecit. São muitas as lendas celtas que nos descrevem a necessidade da alma cruzar um leito de água, um rio ou o próprio mar, para entrar no reino dos mortos. Os mitos gregos ressentem-se desse mito universal com o seu rio Letes, que os mortos atravessam e ficam aliviados da memória da sua vida passada.»

 

4

 

Outra simplificação com plágio (P31)

 

«O domínio romano e a construção do santuário em S. Miguel da Mota representaria de alguma forma a primeira morte de Endovelico.»

 

Fonte plagiada:

 

«S. Miguel da Mota é, assim, o outeiro de uma lusitanidade derrotada e abafada, cortada dos vínculos telúricos com o Submundo, embora falsamente reverenciada pelo lustre do mármore dos velhos legionários agora tornados prósperos patrícios romanos. Endovélico emerge, assim, afrouxado num sucedâneo romano...»

 

5

 

Plágio pelo método de inversão da ordem dos conteúdos e sua simplificação (P30):

 

«A Rocha da Mina entranha-se no interior da terra, apesar do seu morro, enquanto S. Miguel da Mota se impõe pela fulgurante beleza de um templo que se transforma...O culto mantém-se mas cremos que a sua desnaturalização passou a atrair os que de alguma forma se associavam ao novo poder estabelecido»

 

Fonte plagiada:

 

«A romanização de Endovélico inicia a sua desnaturalização! Ao negrume do xisto do seu primeiro santuário em Rocha da Mina sucede a cor branca e sanitária do mármore; à envolvência das fráguas sucede a nudez visível do céu... Os romanos sanearam o telurismo dessa divindade subterrânea e aligeiraram-na numa divindade curadora, tornando-a mais tolerável ao seu temperamento racional. Elogiou-se muito os romanos pelo facto de, embora sendo vencedores, conservarem os cultos indígenas. »

 

6

 

Plágio por método de simplificação e readjectivação (P31)

 

«Mas nem no período romano o Endovelico perde completamente a sua dualidade de divindade ctónica e divindade solar»

 

Fonte plagiada:

 

«A Luz vem das trevas do Submundo e, embora Endovélico seja luminoso, ele também é negro...A sua natureza era, por isso, ambivalente. A sua ambivalência oscila entre a designação que os ofertantes lhe fazem: de Enobolico (inscrição IRCP 519), o “muito negro”, ou de Endovélico, o “muito bom” (interpretatio de Leite de Vasconcelos).»

 

7

 

Plágio por simplificação e fusão, usando dois parágrafos em lugares diferentes e fundindo-os num só (P31):

 

Se os construtores romanos afastam, tanto quanto possível, o santuário das águas primordiais do Lucefecit como forma de realçar as suas características solares, os adoradores do Numen-Deus não deixam de fazer referência à sua face negra do sub-mundo, onde a luz se engendra, continuando a atribuir-lhe o nome de Enobolico «o muito negro», em oposição ao Endovelico o «muito bom» na interpretatio de Leite de Vasconcelos»

 

Fonte Primeira:

 

«O santuário a Endovélico em S. Miguel da Mota parece ter sido construído mais em função dos padrões cultuais romanos do que de valores lusitanos... Ao fazerem essa escolha, porém, o rio ficou separado do seu vínculo ancestral com Endovélico e foi empurrado para a lonjura da paisagem como nota cromática de uma aguarela paisagística. Por outro lado, rompeu-se com o seu enquadramento telúrico. Se nesse tempo remoto o santuário tiver estado envolvido pela floresta então nem sequer teria sido visto o fluxo purificatório das suas águas e o negrume do xisto e do granito que as bordeja, a quem se deve o seu teónimo Enobolico, o “Muito Negro”. »

 

Fonte Segunda:

 

«A sua ambivalência oscila entre a designação que os ofertantes lhe fazem: de Enobolico (inscrição IRCP 519), o “muito negro”, ou de Endovélico, o “muito bom” (interpretatio de Leite de Vasconcelos).»

 

8

 

 Plágio ostensivo (P34)

 

«Talvez nessa dicotomia radique a dupla associação do javali e da palma, presente em pelo menos um cipo. O javali fazendo referência ao mundo inferior, a palma aludindo à alvorada, ao renascimento equinocial da luz sobre as trevas do Inverno»

 

 

Fonte plagiada:

 

«A presença do javali e da palma numa ara votiva a Endovélico tem suscitado muita curiosidade entre a comunidade pagã que se tem interessado pela temática. Na minha opinião ela reflecte a dualidade funcional de Endovelico: aquele que conduz ao Submundo (Javali) e o traz para o Supramundo (Palma e a Pomba).»

 

9

 

Plágio em que o autor nem perdeu tempo em mudar as palavras plagiadas deslocando uma afirmação minha do início do texto para o fim do seu texto (P34)

 

«Ao seu lado negro, às suas características ctónicas, podemos ainda atribuir a explicação para a ara votiva onde se afirma: ex imperato Averno. Sendo o Averno, o lago da Campânia onde se acreditava existir a ligação entre o mundo dos Infernos....»

 

Fonte plagiada:

 

«O que parece caracterizar a religiosidade primitiva portuguesa é a sua permanente relação com o Submundo, a sua qualidade infernal. Numa das aras votivas a Endovélico em S. Miguel da Mota é afirmado: “ex imperato Averno”. Ela traduz-se: “segundo a determinação emanada de baixo”. O Averno era um lago na Campãnia, em Itália, que se acreditava ser a entrada para o Submundo.»

 

10

 

Plágio ostensivo (P34)

 

«Mas que dizer da representação popular que faz representar a imagem de Santo Antão na Igreja da fortaleza da senhora da Boa Nova, segurando um bordão de peregrino e acompanhado de um cão e de um porco, o javali sagrado do mundo ctónico?»

 

Fonte do plágio:

 

«Na fortaleza-ermida de Nossa Senhora da Boa-Nova encontra-se no friso de santos e mártires do Cristianismo um fresco que nos surpreende. Santo Antão tem o cão e o porco por seu companheiro e segura o bordão, como Endovélico segurando a sua lança ou a sua tocha.»

 

11

 

Este pedaço de plágio define bem a personalidade do plagiador. Na realidade a afirmação, que ele retira do meu texto, foi-me feita por uma velhinha que encontrei à entrada da Igreja da Boa Nova mas que por conveniência estético-literária outorguei ao cicerone. Com a cómica agravante que o actual cicerone na igreja-ermida de Boa Nova já não é um cicerone, como acontecia há 6 anos quando visitei o lugar e sobre ele escrevi, mas uma cicerone. Veja-se, assim, o plágio grosseiro e de referente desactualizado, até numa afirmação que eu próprio falsifiquei a paternidade, revelando bem o nível de imbecilidade do plagiador:

 

Plágio ostensivo e grosseiro (P34)

 

«È dessa forma aliás que ainda hoje o cicerone da senhora da Boa Nova nos recebe: “Lá dentro está santo Antão que cura tudo”.

 

Fonte plagiada:

 

«Quando se penetra no santuário-fortaleza de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, imagem deformada do santuário-reduto, o cicerone alvitra-nos com teimosa persuasão: “Santo Antão cura tudo”.»

 

12

 

Plágio ostensivo e grosseiro:

 

«Mas o cajado pode confundir-se com a lança ou a tocha...»

 

Fonte plagiada:

 

«Santo Antão tem o cão e o porco por seu companheiro e segura o bordão, como Endovélico segurando a sua lança ou a sua tocha.»

...

 

O meu ensaio “O Mistério do Duplo Endovelicus” encontra-se publicado há seis anos e com um link novo, desde que se mudou de servidor há um ano, sendo permitido copiar e publicar o seu conteúdo noutros sites desde que com a respectiva referência à sua autoria, como se pode encontrar hoje por vários sites de Portugal e do Brasil, um respeito e reconhecimento pelos direitos intelectuais que este indigente copista não teve em consideração.

 

O ensaio encontra-se: http://www.projectokarnayna.com/numens-lusitanos/endovelicus.